Quem sou eu

terça-feira, 22 de maio de 2012

Ao Final da Residência...


           Hoje estava mexendo nas memórias digitais do meu computador (que são idênticas a memória convencional e até merecem uma postagem depois) e encontrei um discurso que fiz em 2002, ao final da minha especialização de Clínica Médica. Fiquei muito feliz, pois venho mantendo uma certa coerência nesses 11 anos de formado. Minha visão sobre a medicina e a área de saúde em geral segue bem semelhante. Vejam aí...

             “Pois bem, estamos terminando a residência; para alguns, mais uma, para outros, a primeira. O que vem a nossa cabeça quando pensamos em residência? Plantão, claro. A gente emagrece, engorda, xinga a farmácia e dá um plantão; aprende, some dos eternos amigos da faculdade, faz novos grandes amigos, e faz prescrição; xinga enfermeiro, xinga chefe, estressa e dá mais um plantão.
            Hoje, damos mais um passo importante nas nossas vidas profissionais, tendo o privilégio de trabalhar em uma instituição tradicional e de respeito na comunidade médica de Belo Horizonte. O Hospital Felício Rocho nos recebeu com sua estrutura grandiosa e seu corpo clínico excelente, tornando-se uma referência certa e forte nos nossos currículos. Obviamente, o Hospital tem seus problemas; porém, esses são, facilmente, superados pelas suas virtudes. Certamente, todos  nós teremos orgulho em dizer que fizemos nossa residência ou especialização no Hospital Felício Rocho de Belo Horizonte.
            Nesse momento, a lembrança do início torna-se presente: os novos colegas, os preceptores, os enfermeiros, o Hospital, a farmácia, o refeitório e muitos outros. Porém, algo ficará gravado para sempre na memória de todos, como referência dessa fase tão feliz das nossas vidas: O BEEP !!!! Êta aparelhinho malacabado. O Beep, tão querido e estimado por nós, tem o incrível poder de transformar o humor das pessoas. Aquele barulhinho insuportável consegue tirar qualquer um do sério. Reza a lenda que o famoso Beep foi criado em meados de 1939 como técnica de tortura nazista, e ainda hoje é utilizado de maneira bastante eficaz. Ah, e a escolha do barulhinho menos pior... quem já pegou aquele Beep sabe do que estou falando. Pois então, muitos, aqui hoje, estão comemorando não a colação, e sim, o fim do Beep, ou o início de um menos pior. Que alívio, heim?
            Bom, Beep a parte, gostaria de fazer algumas breves considerações a respeito da medicina atual. Primeiro, uma medicina de muita informação e pouca formação, na qual vem ocorrendo uma banalização das coisas simples e comuns, que são tão importantes quanto as complexas. Por exemplo, educação, paciência, caligrafia, humildade e bom humor. Atualmente, um médico bem humorado, paciente, com letra legível e educado, ou seja, básico, é extremamente raro.
            Segundo, uma medicina de muita reclamação e pouca ação. Hoje em dia, o que mais estamos vendo é médico reclamando, seja do colega, seja da instituição em que trabalha, seja dos planos de saúde, seja dos familiares dos pacientes, seja do excesso de trabalho, seja dos enfermeiros, seja do seu time. Reclamar, hoje, tornou-se o principal hobby do médico. De que adianta xingar a má remuneração e se submeter, as vezes, a condições ridículas de trabalho? De que adianta tentar resolver sozinho, se sabemos que o trabalho em equipe é muito mais eficiente? De que adianta apenas criticar a instituição em que se trabalha e não fazer nada para melhora-la? O problema não é falta de tempo, mas sim, comodidade. Sempre foi muito mais fácil criticar que fazer. É necessário descruzar os braços e passar a agir para melhorar.
Terceiro, uma medicina de médicos muito frágeis e desunidos. A prepotência e o choque de egos faz com que os médicos se isolem cada vez mais, enfraquecendo a classe. O trabalho em equipe deve ser valorizado e aprimorado mais e mais em qualquer instituição. Muitas vezes, nós médicos nos julgamos mais capazes e até subestimamos o trabalho dos outros colegas, como enfermeiros e fisioterapeutas; porém, é preciso saber que eles são peças tão fundamentais como o próprio médico. É preciso equilibrar valores e respeitar igualmente desde o faxineiro até o chefe; só assim existirá harmonia e eficiência em uma equipe de trabalho. A limitação não é motivo para desvalorização. O único jeito de atingir objetivos é dividir tarefas, trabalhando junto, respeitando e ajudando cada pessoa a sua volta,  valorizando o sucesso do colega como engrandecimento do grupo, da instituição. Sabemos que os grandes médicos possuem grandes equipes. Ajudar hoje para ser ajudado amanhã.
Um outro aspecto que eu não poderia deixar de mencionar é o auto cuidado. Cuidamos muito bem do próximo e, constantemente, esquecemos de nós mesmos. Vamos trabalhar sim, mas vamos viver também! A vida não é e não pode ser só medicina. Mantenha os amigos da escola, da rua, da família; ao menos você terá outros assuntos, que não medicina, num bate papo informal. Vamos manter nossos hobbies, além das reclamações. Vamos praticar um esporte, ler, escutar uma boa música, ficar mais com a família, jogar conversa fora e namorar mais. A medicina exige muito e o médico precisa estar sempre inteiro para exercê-la da melhor maneira possível; senão, como um doente vai cuidar do outro?
Saibamos, também, que 10 dias de férias não são suficientes para desatualizar ninguém! Torna-se necessário desligar da medicina de vez em quando.
Saibamos que felicidade e bom humor são altamente contagiosos e que são, com comprovação científica, os únicos remédios ótimos para qualquer doença. E o melhor, sem efeitos colaterais!
Tá insatisfeito? Tudo bem, então vai fazer direito, engenharia, vai jogar futebol, sei lá!
Acordou de mau-humor? Tudo bem, mas a enfermeira, o paciente e o seu colega não têm nada a ver com isso. Dê bom dia aos outros, sorria mais.
Vamos praticar uma medicina de maneira saudável e feliz. Com certeza, teremos melhores resultados.
Humildes e eternos aprendizes, iniciamos uma nova etapa!
Obrigado Hospital Felício Rocho!
Adeus Beep!
Sejam todos muito felizes!
Obrigado!

Breno Figueiredo Gomes - Medicina Interna - Dezembro de 2002”

terça-feira, 15 de maio de 2012

Currículo Adicto

     O bom currículo pode abrir muitas portas, mas não as mantem abertas. O currículo é apenas um parâmetro de avaliação do profissional. Óbvio que as realizações profissionais prévias são muito importantes, isso é indiscutível; porém, currículo cheio não é sinônimo de boa formação. O que vem acontecendo nas faculdades é que me intriga... Uma compulsão coletiva por currículos abarrotados de “feitos” inúteis para a formação. Claro que é preciso avaliar, de alguma forma, a performance do aluno, mas acrescentar opções mais inteligentes e práticas poderia ser discutido.

      Saber a teoria é tão importante quanto a relação com o paciente. Na faculdade, avaliações de condutas deveriam ser mais frequentes, valorizadas e estimuladas, embora sejam intangíveis. Cabe ao professor equilibrar a formação técnica e a humana, ambas importantes. Nenhuma das duas se esgota nunca. A formação técnica é mais avaliada porque existem fatores tangíveis para mensurá-la, como presença, provas, arguições e trabalhos. A formação humana dificilmente é avaliada e trabalhada, formalmente, durante o curso. O aluno completamente descompensado emocionalmente e “bom de prova” entra, com facilidade, no mercado de trabalho.

     O profissional de saúde precisa aprender a lidar é com gente. Saber escutar, falar na hora certa, ajudar o próximo, reconhecer suas fraquezas, desenvolver a empatia, praticar a paciência e controlar a impulsividade e o imediatismo são bem mais importantes que uma avaliação, na minha opinião. O inverso também é verdadeiro. Conheço inúmeros profissionais excepcionais nas relações interpessoais, mas muito fracos tecnicamente. Esses também não se sustentam. O conhecimento é fundamental para uma prática segura e eficaz.

    A formação humana exige excelentes professores, maduros e experientes. Geralmente, atinge-se esse grau com o tempo. Infelizmente, o Brasil ainda não aprendeu a valorizar os seus professores, em nenhum grau de ensino, seja no maternal ou no doutorado. Formar, manter e valorizar o professor vem se tornando um trabalho cada dia mais difícil. A nossa educação é reflexo direto dos nossos pais, em primeiro lugar, e dos nossos professores. Sucatear a educação é banalizar o futuro.

     O caminho que já está sendo trilhado, pautado na formação técnica excessiva, nos levará, inexoravelmente, para uma sociedade fria, cara e infeliz. Não sentir desconforto com o desconforto próximo é preocupante. Não precisamos humanizar a medicina e sim, a educação das próximas gerações.

     Para finalizar, uma frase do professor Luiz Otávio Savassi Rocha, ilustríssimo patrono da minha turma: "Humanizar a medicina é igual vegetalizar a botânica!"

terça-feira, 8 de maio de 2012

Automedicação: Não é só um Remedinho...


     Ontem fui convidado para falar sobre automedicação e, ao matutar sobre o tema, percebi que os pouco mais de seis minutos foram pouco para passar o que realmente penso e enxergo sobre este tão delicado tema. Sendo assim, hoje divagarei um pouco mais...

  No Brasil, a automedicação é uma rotina endêmica, perigosa e subvalorizada. Inúmeros motivos levam uma pessoa leiga, e até profissionais de saúde, a utilizarem medicações que pouco conhecem em situações de falsa certeza absoluta. Não discutirei diagnósticos, e sim cinco motivos da automedicação.

1.   Atenção primária subvalorizada em detrimento de uma política de saúde voltada para o tratamento, e não para a prevenção. A dificuldade para marcar uma consulta clínica em consultório é um dos principais motivos para a automedicação. O paciente não consegue marcar com um médico no consultório, não tem possibilidade de enfrentar uma fila de 5 horas no pronto-socorro...
2.   Controle inefetivo e ineficaz das vendas de medicamentos. Falta atitude política. A venda sem receita médica, por mais simples que possa parecer, é uma rotina perigosa. A proibição da venda de antibióticos sem receita foi um avanço indiscutível, tanto cultural quanto bacteriológico, da nossa sociedade. Defendo a proibição de venda sem receita para todos os medicamentos. O médico precisa estar perto do paciente, principalmente, para controlar um quadro de saúde, aparentemente simples, que pode se complicar.
3.  Cultura da Sapiência em Saúde alimentada pelo “colega” Dr.Google. Informação fácil, sem formação, não é saber. Realmente considero extremamente fácil prescrever um analgésico simples; entretanto, saber se é realmente dele que o paciente precisa, exige formação, e não só informação. Lembrem-se que o paracetamol, considerado inofensivo por muitos, é um dos maiores causadores de transplante de fígado nos Estados Unidos. Os anti-inflamatórios, utilizados indiscriminadamente até por médicos, podem levar a insuficiência renal aguda com necessidade, inclusive, de hemodiálise. Uma dor na “boca do estômago” pode ser uma indisposição gástrica, fome ou um infarto do coração.
4.  Perda de “respeito” com a doença. Quando somos acometidos por qualquer doença, tendemos a banalizá-la. Postergar a ida ao médico é característica da maioria dos brasileiros. Tentar melhorar com um remedinho antes de procurar o médico é muito comum.
5.     O lucro fala mais alto que a razão. Propagandas de medicamentos para o público leigo deveriam ser, terminantemente, proibidas. As evidências científicas são “escondidas” em detrimento de ganhos financeiros. O bem estar do paciente passa para o segundo plano e isso é muito perigoso. A utilização de ferramentas poderosas de marketing para vender medicamentos deveria começar a ser discutida de maneira mais transparente e menos remunerada.

     Era isso, por enquanto...
     Assistam a entrevista de ontem clicando aqui.